Viajar esta no sangue. Parte de minha natureza. Quanto mais longe melhor, quanto mais do outro, maior o desafio de torná-lo eu. Desta vez fui longe, para reconhecer partes da nossa  cultura e potencias. É deste jeito que aprendo sobre uma parte de minha identidade cultural. Do ser Brasileiro.

Numa pequena ilha no anel de fogo do pacifico, administrada pelos Chineses que escaparam da revolução comunista para fundar a China capitalista, primeiro me surpreendi com seu poder de fusão. Sim, pois este é para mim uma das maiores potencias do Brasileiro. Algo que herdamos dos Portugueses e aperfeiçoamos, pois naquela península, habitada num tempo longínquo pelos Oestrimnos, seguidos dos Íberos, Celtas, Romanos, Árabes e Africanos. Nota-se que já havia algo de fusion no povo Português. Mas nós aperfeiçoamos. Estes que aqui chegaram, já mestiços, logo “atolaram o pé em carne” e não cansavam de se fundir com as diversas tribos de índios e africanos. No início Franceses e Holandeses olharam a festa e não quiseram ficar de fora, e muito mais tarde, alemães, italianos e japoneses vieram compor a polifonia genética nacional. Há quase um Japão dentro do Brasil.

Taiwan diverge em escala e na intensidade da fusão. Um povo que aceita a alteridade, até certo ponto. Uma alteridade na convivência e no interesse, mas com menor capacidade fusional. A ilha começou como um centro importante dos aborígines austronésios. Nada de Chineses. As primeiras migrações chinesas começaram apenas no século XIII-XIV, apenas um povo distinto dentro da diversidade étnica asiática, os Hakka. Durante o período das navegações Holandeses fundaram uma cidade-porto na ilha, e no século XVII de fato os Chineses colonizaram a ilha. Que depois foi recolonizada por Japoneses, e por último, pelos remanescentes do partido-exército Guomindang (Partido Nacionalista Chinês liderado por Chiang Kai Shek).

Escutando um espanhol tocar Garota de Ipanema acompanhado de um Taiwanês, ambos tocando violão num bar de Taipei, logo notei que o povo tinha uma abertura incomum para o outro, Algo que não se nota na China continental. Mas o que só um Brasileiro poderia se perguntar, e perceber, é a beleza da Garota de Ipanema. E no momento eu falo só da música. Da Bossa Nova e outros. (Deixemos a garota para depois. A musica Brasileira parece onipresente no mundo. E naquele momento, eu a via não como uma bela canção, mas como a fusão da sofisticação da harmonia da música européia com o ritmo potente e vital das culturas africanas. Cruzando com Brasileiros na Asia e na Europa, todos, desejosos por escutar a nossa musica. Como se transportasse para casa, mas também para algo mais que a casa. Pois há ali uma beleza num tipo de criação, que nos coube trazer ao mundo.

No contexto Taoísta, a fusão de qualidade produz um centro, que transforma oposição em complementariedade, une as qualidades dos opostos em uma nova entidade, que tem a possibilidade de evoluir, trazer o novo.

Agora voltemos a Garota de Ipanema. Falo agora da mulher brasileira, não da musa, ops, Música. Não apenas de sua beleza variada, onipresente nas diversas matizes do Norte ao Sul, mas de um tipo potência, inata ou conquistada, não importa. Uma potência que por mim é reconhecida quando convivo dentro da cultura do outro.

E neste caso nada melhor do que Taiwan. Um lugar onde a história do controle do feminino não passou pelos desvalores judaico-cristãos, portanto, a princípio espera-se um povo mais liberal em termos de relacionamentos e sexualidade. E talvez de fato o seja, em termos de um tipo de sexualidade de objeto para objeto. Business. O choque é ver, uma cultura onde o sexo nunca foi demonizado, a imensa falta relacional e sexual do povo, mas expressa nos corpos e alma do feminino.

Meu olhar vem de uma mistura de investigação acadêmica, e do lugar de professor de uma escola que pretende “ensinar” algo sobre relacionamentos e sexualidade humana. Na interação com meus professores e diante do pedido de alguns deles que ensinasse algo sobre o assunto, terminávamos sempre num ponto comum: Como era difícil, ou quase impossível, avançar neste tema naquele local. No próprio local onde há milênios, a cultura dos ancestrais deste povo desenvolveu o saber que hoje desenvolve-se em outros lugares.

Como acadêmico, há muito o que falar e pesquisar sobre o assunto, mas vamos examinar um traço comum da cultura, provavelmente originado do confucionismo. É uma cultura de obediência. Sexo não é do diabo. É apenas uma alta concentração de possibilidades de expressões inadequadas, para uma cultura das normas fixas de comportamento, do não espontâneo na expressão emocional. E casamento é uma união para gerar descendentes, homens de preferência. Não parte do desejo de amar. Algo que leva a um tipo de distancia, corporal e afetiva, e no fim, a falta, de todos. Mas que passa por um feminino que foi criado para obedecer.

O feminino no ocidente é diferente, pois há décadas trava batalha contra o demônio da obediência, tendo conquistado e criado uma nova cultura. É no ocidente que as possibilidades de evolução relacional e sexual se encontram. E especialmente no Brasil, pois nossas mulheres carregam não apenas um espírito mais livre, tendo conservado ou conquistado um tipo de qualidade feminina mais evidente que nos países de cultura ocidental do hemisfério norte.

A mulher brasileira é como nossa música. É mais uma expressão da capacidade de fundir potências. Da liberdade, do feminino, do sensual, da proximidade, do sensível ao outro, resultando num tipo de energia que permeia o tecido social, fortalecendo-o não apenas como um grupo de homo economicus, que se entende potente por sua capacidade produtiva apenas, mas como um tipo de tecido social que se torna forte, pois carrega em si a fusão destas potencias do humano, e que de certa forma contrapõe a proposta de segregação e atomização características do desenvolvimento do capitalismo.

Bem, hora de falar um pouco de nossas sombras. Também muito notáveis quando se olha de fora. Os últimos dois anos tem sido particularmente difíceis para nós, enquanto nação, povo, cultura e economia. Lembro da luz econômica. Em 2009, o sistema financeiro dos Estados Unidos da America sofria um golpe considerável, a ponto do Estado supostamente mais liberal do mundo, pagar para suas grandes empresas não quebrarem. Por volta deste momento um comercial me chamava atenção:

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Provavelmente feito pela agencia Brasileira Neogama para uma empresa de bebidas destiladas (tenho apenas fontes não confiáveis para confirmação de autoria), era como se o mundo reconhecesse o despertar do colosso: “Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso, e o teu futuro espelha essa grandeza”. Investimentos, mão de obra qualificada, os olhos do mundo se voltavam para nós. Muita gente queria se mudar para o Brasil.

Mas quebramos. E aqui não quero falar de política, mas oferecer um olhar sobre as dinâmicas coletivas que nos fazem Brasileiros em nossa união pela sombra. E que precisamos superar, pois, quando entramos em nossa escassez coletiva, nossas sombras se manifestam com mais força.

Navegar é preciso, pois é navegando que se pode olhar as suas sombras. E a que mais me saltou aos olhos estando no exterior é aquela que une, arquetipicamente, o político e o estuprador.

É aquela que permite olhar para a terra, para a nação e para a mulher, porque são a mesma, e dar a si a permissão de tomar. Psicopatia.

O tomar para si o que não lhe foi dado, como se a terra em que pisas assim permitisse ou mesmo pedisse. São as veias abertas da America Latina. Começamos assim. O lugar do tomar sem dar retorno, o lugar da exploração que marca um tipo de desvalorização do explorado.

E como se nunca pudéssemos ser de fato ricos, pois somos todos presos na dinâmica do explorador e do explorado. Nossa riqueza parece nunca ser legitima, é como se estivéssemos fixados em uma das duas posições, ou daquele que toma o que não é seu, ou da vítima que é subtraída. E permanece no fundo sempre o não-valor, pois aquele que toma sabe que não é de seu mérito, e portanto, não pode se preencher e se integrar com aquilo que toma. E aquele que é subtraído, naturaliza pobreza e o sofrimento em um destino inevitável.

Mas como diria Chico, vai passar. Já está passando.

Em nossa Brazilian Fusion, somos ricos e valorosos, nossa terra, idem. Apenas, por nossa história, ainda não alcançamos maturidade emocional coletiva para viver isto em plenitude. Mas está chegando.  Cabe uma homenagem a Jorge Mautner: Ou o mundo se Brasilifica ou se torna nazista. Levanta-te Brasil colosso pois tens um papel no mundo ainda por cumprir.