De Janderson a Prem Baba, com parada em Osho: Caminhos Espirituais de um Brasileiro

Quando o Eduardo Alexander escreveu este artigo sobre a capacidade integrativa do brasileiro, me fez refletir sobre o tema da nossa capacidade de fusão. Achei interessante retornar ao assunto para situar a questão. Integrar Cristianismo, Candomblé, Chackras e Mediunidade Kardecista em uma único caminho é algo que só a cultura Brasileira poderia fazer. Na nossa visão do Brasil como caldeirão do mundo, já integramos (parcialmente e com conflitos): Portugueses, Negros, Índios, Italianos, Alemães, Japoneses. E todas as culturas religiosas que estes trazem.

O Braqil é um país em que a força da floresta ao norte dá acesso às culturas indígenas com seu shamanismo de rituais enteógenos, integrando aspectos do cristianismo com o ayahuasca. Sendo um lugar onde a abertura do coração tem forte apelo, a importação de tradições de Bhakti Yoga (Caminho devocional) encontra terreno fértil. Junte isto a nossa sensualidade e sexualidade. Sim, você já deve ter percebido quando sai do país que nós (Brasileiros) temos algo diferente em relação a sexualidade, não? Pelo menos outros povos nos percebem assim.

Nesse sentido, o caminho de Janderson a Prem Baba nos representa em parte: Psicologia, Medicina Chinesa, Shamanismo amazônico com cristianismo (Santo Daime). Some a isto uma pitada de Osho, pois sim, como seres intensamente sexualizados, o guru da contracultura é indispensável para santificar nosso sexo. E Bum! Temos o Caminho espiritual de um Brasileiro.

Nada disso, porém, seria suficiente para o nascimento do Baba. Para isto, foi preciso uma viagem a Índia com treinamento e reconhecimento dentro de uma linhagem hinduísta devocional (centrada em Bhakti Yoga), que traz consigo todos os aspectos citados na primeira parte deste artigo. Convidamos a reflexão sobre os significados de abuso neste contexto do caminho espiritual de um brasileiro.

Os abusos de Prem Baba não foram os mesmos frequentemente ocorridos na Igreja Católica por exemplo, onde pessoas, menores de idade, em geral, são coagidos ao contato sexual sem consentimento, e o que deveria ser tratado como crime a sociedade fecha os olhos e aceita.

– “Maria, afinal, houve abuso sexual de mulheres, ou não?”

O primeiro abuso que convidamos a reflexão é um abuso de posicão de saber. Uma desonestidade na relação com a origem e transmissão de um saber. Poucos falam sobre isto pois requer uma noção de história das religiões. Quando ele aparece como Sri Prem Baba, representante da linhagem Sachcha, está empoderado por mestres que tem como caminho a devoção, a entrega, o amor universal, a meditação, o mantra, e a busca ou chegada ao celibato. Esta linhagem não representa ou transmite tradições de sexualidade sagrada. Na história da Índia, isto coube ao Tantrismo.

Sri Prem Baba ocupa assim o lugar de mestre, e deste lugar se propõe a conferir ensinamentos ou tratamentos terapêuticos em sexualidade. Porém, sua maestria foi conferida por uma linhagem que nada transmite sobre o assunto da sexualidade sagrada.

A reflexão sobre este ponto é necessária. O Brasileiro em geral entende que o tornar-se guru (mestre), implica em ter conhecimento e maestria sobre tudo. Não é o caso. Nos parece que as investigações sobre sexualidade conduzidas por Janderson, provém de um envolvimento com o movimento de Bhagwan Sri Rajneesh, o Osho. O Guru da contracultura, recém chamado aos holofotes da mídia pela série Wild, wild country, promoveu no ocidente um movimento de revolução sexual autoproclamado como Tantrismo, que rigorosamente, porém, não poderia ser assim chamado. Osho nunca foi um tântrico. E mesmo que tivesse sido, continua não sendo honesto se colocar como mestre, professor ou terapeuta de tantra utilizando a linhagem Sachcha para validar sua maestria.

O segundo aspecto é o abuso da posição de poder de mestre, professor ou terapeuta, de qualquer assunto. Mas quando se trata de sexo, isso torna-se ainda mais delicado. Quando procurado ou quando oferece um espaço de trabalho terapêutico-educativo sexual, os limites devem estar muito bem definidos. O que parece ter ocorrido ali muito me toca como mulher, pois já presenciei algumas passagens semelhantes.

Quando oferece ou abre o espaço para o trabalho, quem está ali é o Sri Prem Baba, e a pessoa a este se entrega. Mas quando se envolve, o Janderson entra em cena e passamos a ter um ménage à trois psíquico.

Sri Prem Baba é o responsável por atrair a mulher ao quarto, mas quando lá chega, Janderson está junto.

– “Pois Maria, você não disse que um líder espiritual pode ter relações sexuais, e que pode ser bom?”

Sim, eu disse. Mas isto não significa que ele pode ter relações em qualquer condição. Estamos diante do dilema da honestidade (interna e externa). No Tao, o cultivo da honestidade nas relações é um atributo do elemento fogo. Conseguir olhar para dentro de si e perceber o autêntico e verdadeiro em sua identidade sexual (interno) e conseguir comunicar isto claramente aos seus parceiros sexuais (externo).

Ao olhar para dentro de si e perceber que Janderson precisava ter encontros sexuais para seguir em seu caminho evolutivo (honestidade interna), ele deveria assumir isto em suas parcerias sexuais. O que implica em sair do lugar de líder espiritual enquanto tivesse dando este espaço ao Janderson. Poderia ter ido para uma das muitas comunidades neotântricas que existem no Brasil e declarar: Estou aqui como pessoa, em busca de uma parceira para trocas sexuais-afetivas. Ótimo.

No outro extremo, vamos supor que Prem Baba quisesse integrar as qualidades de terapeuta e professor de sexualidade. Bem, neste caso ele deveria ser honesto com:

  1. O seu mestre de uma linhagem de celibatários: afirmando a ele que estava fazendo este tipo de integração, e lidar com as questões de hierarquia masculina neste tipo de organização.
  2. As mulheres para quem convidou a um espaço de terapia ou ensino: deveria deixar bem claro que tudo que ocorresse ali se daria no limite de uma relação de cura ou transmissão de saber, e que não haveria nenhum caráter pessoal naquele encontro. Conferindo assim os limites adequados à situação. Limites que qualquer profissional que oriente questões psíquicas e energéticas em sexualidade humana precisa definir. Do psicanalista que orienta apenas através da palavra, ao Reichiano, que toca o corpo, ao terapeuta neotântrico que pode vir a tocar os genitais com autorização consentida.

Um último ponto que aparece nos relatos das mulheres e precisa ser observado é o exercício de um poder coercitivo sobre a escolha de comunicação. Aparentemente havia uma pressão para que a mulher envolvida não comunicasse ao seu parceiro a situação. Para nós funciona mais ou menos assim: a organização e seus membros não precisam saber com quem Janderson se envolve como pessoa. Também quem se trata ou se consulta com Prem Baba é informação privada. Porém, a mulher que se envolve com Janderson tem todo o direito, e mesmo dever, de relatar ao seu parceiro íntimo o que ocorre. Houve uma coerção para participar de uma obscuridade. O mesmo vale para relatar ou não o que ocorre dentro de um espaço terapêutico. É uma decisão daquele que se expõe ao tratamento/orientação. É este que precisa ter livre escolha.

– “Está bem Maria, chega. Ele teve seus erros. Mas não foi o único, não é?”

Houveram abusos, os vários citados acima. Como mulher e educadora em sexualidade não posso fechar os olhos para isto. Podemos adicionar perspectivas. Olhar transformações e aprendizados possíveis. A humanização do guru é algo inevitável. A inclusão de Janderson em Prem Baba. Que o patriarcado aceite e acolha a sexualidade, e que ele possa se envolver com ela livre e honestamente. Estaria a organização pronta para redefinir o papel do Guru? E Prem Baba disposto a sair da posição de poder que o permitiu cometer os abusos? Seus discípulos precisariam ainda beijar seus pés depois desta reformulação? Quem sabe a saída não seja mais uma fusão Brasileira: Do Osho com Sachcha.

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